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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Energia Nuclear: Brasil e Argentina, cooperação nuclear

Brasil e Argentina, cooperação nuclear

06/07/2011 - O Estado de São Paulo - via JC
Artigo de Antonio de Aguiar Patriota e Héctor Marcos Timerman
(ministros das Relações Exteriores do Brasil e da Argentina.)

No próximo dia 18 de julho completam-se 20 anos da assinatura, entre a República Federativa do Brasil e a República Argentina, do Acordo para o Uso Exclusivamente Pacífico da Energia Nuclear. Por meio desse acordo, a Argentina e o Brasil renunciaram conjuntamente ao desenvolvimento, à posse e ao uso das armas nucleares, afirmaram seu compromisso inequívoco com o uso exclusivamente pacífico da energia nuclear e criaram a Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (Abacc), para controlar os compromissos assumidos.

Cinco meses depois, os dois países firmaram um acordo quadripartite com a Abacc e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), para a aplicação de salvaguardas abrangentes em todas as suas instalações nucleares. Esse passo transformou substancialmente o caráter de nossa relação bilateral no plano político. O tema nuclear deixou definitivamente de ser um ponto de possíveis suspeitas e se converteu num pilar central da confiança e da cooperação na relação estratégica entre os dois Estados sul-americanos, mediante um processo negociador e uma estrutura jurídica sem precedentes em nenhuma outra região.
 
A grande maioria dos países do mundo adotou os compromissos e controles internacionais em matéria nuclear ao aderir ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP). Nós iniciamos esse caminho por meio do acordo bilateral e do acordo quadripartite, para, em seguida, nos somarmos ao Tratado de Tlatelolco - que transformou a América Latina e o Caribe numa Zona Livre de Armas Nucleares - e ao TNP.

O Brasil e a Argentina estiveram também entre os primeiros países a assinar e a ratificar o Tratado para a Proibição Completa dos Testes Nucleares (CTBT). A criação da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares representou a culminação, em termos jurídicos, de um processo de aproximação iniciado pelos então novos regimes democráticos da Argentina e do Brasil, com a Declaração Conjunta sobre Política Nuclear, de Foz de Iguaçu, em 1985. Ao mesmo tempo, constituiu o ponto de partida para a consolidação de uma relação bilateral estratégica numa área central da segurança internacional.

Na Abacc - que é uma organização independente -, as inspeções das instalações nucleares argentinas são levadas a cabo por inspetores brasileiros, e as inspeções das instalações nucleares brasileiras são conduzidas por inspetores argentinos. Essa dinâmica gerou, por si mesma, um elevado grau de confiança mútua sobre natureza pacífica dos nossos programas nucleares.

Igualmente importante é a plena confiança que a Agência Internacional de Energia Atômica tem no trabalho da Abacc. Os dois organismos atuam de forma independente, porém complementar, buscando sinergias e evitando a duplicação de esforços. É a partir dessa referência que nos temos posicionado conjuntamente ante as diferentes questões que se colocam no debate sobre os temas nucleares.

Temos muito clara a prioridade que a comunidade internacional deve atribuir ao desarmamento nuclear, entre os esforços para evitar a proliferação e construir um mundo mais pacífico e seguro, sem a ameaça das armas de destruição em massa. As recentes Declarações Conjuntas sobre Cooperação Nuclear, de 3 de agosto de 2010 e de 31 de janeiro de 2011, mostram a amplitude e a profundidade que alcançou essa relação e ratificam o compromisso da Argentina e do Brasil com um caminho conjunto.

Esses pronunciamentos presidenciais destacam o caráter singular da Abacc como mecanismo de construção da confiança mútua e internacional que assegura o controle de todas as atividades nucleares da Argentina e do Brasil, e como fundamento da cooperação bilateral em matéria nuclear. Ao mesmo tempo, decidem que a Abacc deve ser constantemente aperfeiçoada e reforçada em suas funções e seus objetivos.

Em seu 20.º aniversário, esta Abacc consolidada começou a participar, com status de observadora, das reuniões da Junta de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica, da mesma forma que nela atua, por exemplo, a agência européia - a Comunidade Europeia da Energia Atômica (Euratom ou CEEA).

Além disso, numa coincidência de caráter histórico, há menos de duas semanas o Grupo
de Supridores Nucleares (NSG, na sigla em inglês), integrado por 46 países, estabeleceu
novos requisitos para a transferência das tecnologias mais avançadas no campo nuclear e reconheceu naquele ato, numa decisão sem precedentes, a participação na Abacc como critério alternativo ao cumprimento do Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica.

O significado da experiência argentino-brasileira na promoção da transparência e da confiança mútua no campo nuclear foi também reconhecido em diversos documentos da
AIEA e das conferências do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares. Serve, assim, de exemplo e fonte de inspiração para outras regiões do mundo, onde, infelizmente, a presença de armas nucleares e de outras armas de destruição em massa é ainda uma realidade.

Celebrar a Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares é celebrar uma Argentina e um Brasil que olham para o mundo a partir de sua relação estratégica. É celebrar nossa vocação regional para a paz.
---x---

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Os riscos da ideologia no debate nuclear

Os riscos da ideologia no debate nuclear
José Antonio Sorge - Valor Econômico - 12/05/2011 (via JC)
(Engenheiro e vice-presidente de Gestão de Energia da Rede Energia.)

O debate sobre a energia nuclear no Brasil lembra uma senoide, curva bastante familiar para os matemáticos, físicos e engenheiros, tendo em vista a persistente característica de, ciclicamente, retornar ao ponto de início das discussões.

terça-feira, 26 de abril de 2011

A questão nuclear

Mais um texto interessante que saiu no Boletim da SBF (Sociedade Brasileira de Física), sobre energia nuclear.

 (imagem: ETFtrends)

Boletim [009/2011]

A questão nuclear 
(Prof. Silvio R. A. Salinas - Instituto de Física da USP)

Energia nuclear: controvérsias e diálogo

Alguns dias depois do desastre de Fukushima, houve um debate aqui na USP, programado para o lançamento de um livro – Energia Nuclear: do anátema ao diálogo, editado pelo Senac de São Paulo – organizado pelo meu colega economista José Eli da Veiga, que é um texto particularmente recomendável nas atuais circunstâncias. A geração de energia elétrica a partir da fissão nuclear, que ainda pesa muito pouco aqui no Brasil, mas que compõe parte substancial da matriz energética no hemisfério norte, sempre veio acompanhada de controvérsias sobre a segurança dos reatores, o gerencialmente dos detritos radioativos, e possíveis conexões com a produção de armamentos. O desastre de Fukushima reascende essas controvérsias, que se colocam nesse livro, na perspectiva de um país como o Brasil, com ampla capacidade hidroelétrica, mas com um programa nuclear envolvendo duas usinas em funcionamento, uma usina em construção, quatro usinas em fase de planejamento, além de reservas significativas de urânio natural e de relatos de sucesso nos esforços para o seu enriquecimento.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O risco nuclear, por Joaquim Francisco de Carvalho


OGlobo - Publicada em 04/04/2011 às 18h41m

JOAQUIM FRANCISCO DE CARVALHO*

Fala-se pouco sobre a gravidade e o número de acidentes nucleares, mas a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) recebe cerca de 10 a 15 notificações, por ano. Os mais graves foram o de Three Mile Island e o de Chernobyl.

O de Three Mile Island por pouco não comprometeu a saúde de milhares de pessoas na Pensilvânia.

O de Chernobyl provocou a morte imediata de 47 funcionários e operadores que estavam na usina e de bombeiros que chegaram para combater as chamas. E a explosão de hidrogênio e a combustão da grafita usada para moderar aquele reator produziram uma nuvem que carregou produtos de fissão altamente ativos como o césio-137 e o estrôncio-90 para boa parte da Europa. Alguns desses produtos ainda são encontrados nos solos e contaminam alimentos na Ucrânia e na Bielorússia.

Outros acidentes sérios foram os de Forsmark, Tokaimura, Bohunice, Erwin e Mayak. Estes ficaram pouco falados, mas agora Fukushima vem lançar os acidentes nucleares às primeiras páginas.

Não existe máquina infalível nem obra de engenharia 100% segura. Haja vista os inúmeros acidentes de avião, automóvel e trem, que acontecem pelo mundo.

Os acidentes nucleares têm dimensões que os outros não têm. Eles se propagam pelo espaço - continentes inteiros - e pelo tempo (décadas, senão séculos).

Um desastre de avião, por exemplo, atinge diretamente os passageiros e, indiretamente, seus próximos, que ficam. Por mais traumático que seja, este tipo de acidente termina no local e no instante em que acontece.

Um acidente em central nuclear apenas começa no instante e no local em que ocorre. Alguns anos depois centenas de pessoas em regiões inteiras sofrerão males induzidos por exposição a radiações ionizantes. E em algumas décadas crianças nascerão com aberrações cromossômicas e desenvolverão leucemia e desordens endócrinas e imunológicas, provocadas pela absorção, por seus genitores, de doses de radiação acima do tolerável, como acontece até hoje em consequência de Chernobyl, com a população que permaneceu nas cidades próximas.

O Brasil não precisa correr o risco de acidentes em usinas nucleares, pois aqui a energia pode vir praticamente toda de um sistema hidroeólico, com mínima complementação térmica a gás natural. Dessa forma será possível "armazenar" parte do imenso potencial eólico brasileiro em reservatórios hidrelétricos, aumentando significativamente o fator de capacidade do sistema elétrico interligado.

* JOAQUIM FRANCISCO DE CARVALHO foi diretor industrial da Nuclen (atual Eletronuclear) e presidiu a comissão provisória criada pela Presidência da República para avaliar o acidente com césio-137, em Goiânia.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Energia Nuclear - Transparência no diálogo


Por Fábio de Castro

Agência FAPESP (22/03/2011) – A discussão sobre a expansão do parque nuclear do Brasil está cercada por controvérsias. Mas, de acordo com o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), José Eli da Veiga, pelo menos uma certeza surge quando se analisam os argumentos antagônicos sobre a questão: o planejamento energético brasileiro precisa ser mais democrático.

Veiga, que é coordenador do Núcleo de Economia Socioambiental (Nesa) e orienta o Programa de Pós-Graduação do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, organizou o livro Energia Nuclear: do anátema ao diálogo, lançado na semana passada em São Paulo, com um debate sobre o tema na FEA-USP.

De acordo com Veiga, não há dúvida de que a produção brasileira de energia elétrica, predominantemente hidrelétrica, precisará em breve de uma complementação de base térmica. O livro reúne artigos de especialistas favoráveis e contrários à adoção da energia nuclear para suprir essa necessidade.

“Não creio que estejamos em condição de dizer que nos aproximamos de um consenso, mas o diálogo existe, como fica claro no livro. Por outro lado, temos que avançar muito nessa discussão. Trata-se de um problema muito sério, especialmente neste momento em que o Brasil está prestes a construir uma quarta usina nuclear, no rio São Francisco”, disse à Agência FAPESP.

Segundo ele, a alternativa nuclear deve ser debatida, embora envolva riscos. “Se não assumíssemos riscos, hoje não estaríamos voando, ou mesmo andando de trem”, comparou. Nem mesmo a ameaça recente de um acidente nuclear no Japão, após terremoto e tsunami que atingiram a região norte do país, deverá ser suficiente para que outros países renunciem à energia nuclear, afirma.

“No entanto, o acidente tem uma série de implicações. Uma delas, muito importante, é aumentar o interesse da sociedade pelo assunto, o que poderá pressionar o governo por uma maior transparência nessas decisões. A principal conclusão que eu tiro da minha experiência pessoal como organizador do livro é que, no Brasil, o planejamento energético não é transparente, nem é democrático”, disse Veiga.

Para o professor, o diálogo entre os especialistas já existe e o conhecimento sobre os prós e contras da energia nuclear está bastante avançado. Mas esse conhecimento ainda não é utilizado de forma imparcial e transparente.

“Não falta conhecimento científico e tecnológico para discutir o planejamento energético. Mas a discussão é feita por grupos e os planos são discutidos em reuniões nas quais são os lobistas que comparecem preparados para fazer uma boa argumentação. Depois disso, os planos se tornam elementos de pressão sobre o governo nas suas alternativas de investimento”, disse.

De acordo com Veiga, as decisões em torno do planejamento energético não são coerentes com a estrutura democrática do país. “Estamos em um século no qual teremos que deixar de lado, progressivamente, fontes fósseis como petróleo, carvão e gás. Não é possível que um país seja democrático se uma questão tão séria para o futuro da humanidade não for discutida com transparência”, afirmou.

Uma das vias para superar esse problema, segundo ele, é que a discussão passasse pelo Congresso Nacional. “O Congresso discute temas muito menos importantes. Não seria preciso legislar sobre o assunto, mas não entendo que não passe pelo Congresso uma discussão sobre a construção de uma quarta usina nuclear”, disse.

De acordo com Veiga, o livro não foi feito com o objetivo de produzir um consenso, mas sim de esclarecer a controvérsia. “Certamente, os leitores tirarão alguma conclusão, mas talvez não as mesmas, porque o livro não tem a pretensão de produzir um consenso artificial. A tarefa dele é alertar sobre a necessidade de participação democrática e, especialmente, investir contra a desinformação”, afirmou.

Veiga explica que uma de suas motivações ao conceber a obra foi perceber que havia uma extrema desinformação sobre a questão nuclear. Segundo ele, muitas vezes na pós-graduação os estudantes não sabiam a diferença entre fusão e fissão nuclear, por exemplo.

“O livro começa explicando os conceitos – o que é energia nuclear e como ela surgiu, por exemplo. Depois há dois capítulos mais técnicos – e fundamentais –, um a favor e outro contra a adoção da energia nuclear como solução para a complementação energética”, explicou. 

Apenas complemento

No livro, Leonam dos Santos Guimarães, professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e assistente da presidência da Eletronuclear, é um dos especialistas que argumentam a favor da alternativa nuclear. Durante o debate na FEA-USP, ele apontou que o vazamento de material radioativo na usina nuclear de Fukushima, no Japão, não será suficiente para frear a expansão das usinas.

“O problema afetou gravemente um dos quatro reatores da usina de Fukushima. Outras três usinas da região, no entanto, resistiram ao terremoto e ao tsunami de 10 metros e – até pelas características de segurança que essas usinas exigem – estão entre as únicas estruturas industriais que resistiram ao desastre”, disse Guimarães.

Segundo Guimarães, a energia nuclear pode ser uma boa alternativa para atender à demanda de energia e possibilitar o aumento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos países, sem comprometer o meio ambiente. De acordo com ele, em um grupo de países que inclui a maior parte da população mundial, observa-se uma correlação direta entre o IDH e o consumo de energia elétrica per capita.

“Uma das alternativas para aumentar esses índices é o investimento na energia produzida pelo urânio. Cerca de 73% dos recursos naturais de urânio estão em seis países, sendo que o Brasil tem quase 6% dele. A Austrália é atualmente a maior reserva, mas o Brasil só prospectou até agora um terço do território e estima-se que, no futuro, o país possa ser o primeiro ou segundo maior detentor das reservas mundiais”, disse.

De acordo com Guimarães, apenas o Brasil, a Rússia e os Estados Unidos têm à sua disposição, simultaneamente, os recursos naturais e a tecnologia para explorar a energia nuclear – o que torna o Brasil privilegiado no contexto da expansão nuclear.

“Hoje, há 45 usinas sendo construídas em 14 países, além de outras 46 em planejamento. Mas a maior parte delas está na China, na Rússia e na Índia. Nossa expansão é modesta diante desses países, o que é ótimo, porque a energia hidrelétrica – limpa, renovável e barata – continuará a ser a base de geração da energia elétrica no país. A energia nuclear, no entanto, será importante para a complementação necessária”, afirmou.

O Plano Nacional de Energia para 2030, segundo Guimarães, prevê que haverá necessidade de expansão adicional de 100 mil megawatts, sendo 4 mil megawatts em energia nuclear, 4,7 mil megawatts em biomassa, 3,3 mil megawatts em energia eólica, 3,5 mil megawatts em carvão e 57,3 mil megawatts em energia hidrelétrica.

“Esses números mostram que o Brasil não está elegendo a alternativa nuclear para dominar sua matriz energética. As outras matrizes todas têm previsão de expansão da mesma magnitude. A energia nuclear, no entanto, será fundamental para a complementação”, disse. 

Premissas equivocadas

O físico José Goldemberg, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), foi um dos especialistas responsáveis pelo capítulo contrário à adoção da alternativa nuclear. De acordo com ele, a posição de que é indispensável aumentar o parque nuclear se baseia em hipóteses questionáveis.

“Tenho várias ressalvas à programação do Plano Nacional de Energia. Os planejadores da área pensam a partir de uma correlação entre o consumo de energia por habitante em função da renda. Com os gráficos que eles apresentam, temos a impressão de que há uma relação linear entre o consumo de energia elétrica e o crescimento do PIB. Essa premissa está completamente equivocada”, afirmou.

Segundo Goldemberg, a hipótese dos planejadores da área energética é de que um crescimento anual de 6% do PIB faria praticamente triplicar o consumo de energia elétrica até 2030.

“A argumentação dos planejadores se baseia nessa suposta linearidade entre crescimento do PIB e do consumo de energia. Mas sabemos que essa correlação não é linear. Enquanto argumentam a favor da energia nuclear para atingir esse suposto crescimento de demanda, a questão da eficiência energética – menina dos olhos dos países desenvolvidos – aparece como um fator de segunda ordem no planejamento energético”, afirmou.

Segundo Goldemberg, como a energia era no passado um fator de produção pouco importante, por ser barata, não havia encorajamento para que a indústria tornasse os processos mais eficientes.

“Conforme a energia foi encarecendo, a preocupação com a eficiência aumentou. Isso se refletiu até mesmo no projeto dos automóveis. Nos Estados Unidos e na Europa, não se pode mais fazer equipamentos como geladeiras que não respeitem um desempenho energético mínimo”, disse.

Goldemberg afirma que é evidente a necessidade de inserir um componente térmico complementar na matriz energética, já que há variações nos reservatórios que geram a energia hidrelétrica. O físico, no entanto, acredita que essa complementação poderia ser feita com alternativas como biomassa e gás.

“Isso não significa que a energia nuclear deva ser abandonada, mas a expansão das usinas é muito questionável. O planejamento brasileiro se baseia em hipóteses simplistas. Além da possibilidade de investir mais em eficiência energética, em centrais de bioeletricidade, também é possível alcançar a complementação energética com os inúmeros projetos de hidrelétricas médias de 500 megawatts previstos até 2019”, afirmou.

As hidrelétricas médias, segundo ele, não têm um impacto ambiental tão violento. “Há grande polêmica em torno de usinas como a de Belo Monte, mas isso ocorre porque se trata de um megaprojeto, com megaconsequências como um desmatamento de 500 quilômetros quadrados. Por outro lado, com ou sem a usina, a devastação anual na Amazônia é de 5 mil quilômetros quadrados”, disse.

Além de Guimarães e Goldemberg, o livro reune também artigos de João Roberto Loureiro de Mattos, diretor do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), e Oswaldo dos Santos Lucon, assessor técnico da Secretaria Estadual de Meio Ambiente de São Paulo, pesquisador do IEE-USP e autor do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). 

Energia Nuclear: do anátema ao diálogo
Organizador: José Eli da Veiga
Lançamento: 2011
Preço: R$ 35
Páginas: 136
Mais informações: www.editorasenacsp.com.br


terça-feira, 29 de março de 2011

Desarmamento nuclear: Quem aceitará o desafio de Ban Ki-moon?

 Quem aceitará o desafio de Ban Ki-moon?


    NY contra a bomba nuclear


O secretário geral da ONU desafiou os países signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear a respeitar os compromissos de desarmamento. “Um falhanço nesse objectivo será um passo atrás”, disse.

A declaração de Ban Ki-moon foi proferida na cerimónia de abertura da conferência quinquenal através da qual os 189 países signatários do citado Tratado (TNP) deverão renegociá-lo no sentido de reforçar a segurança mundial e alcançar o desmantelamento dos arsenais nucleares. Nos termos do artigo IV do próprio TNP, as renegociações deverão ter como objectivo o desarmamento nuclear global.

O TNP foi assinado em 1970 e de então para cá as sucessivas reuniões de renegociação não têm evitado a expansão das armas nucleares e o reforço dos arsenais das potências dominantes. Apesar das palavras do secretário geral da ONU, as expectativas em relação à actual sessão, que terminará a 28 de Maio, não são elevadas depois das posições assumidas pelas principais potências na recente reunião de alto nível convocada por Barack Obama em Washington. De acordo com episódios que antecederam a conferência e com o clima da sessão de abertura é de esperar que os trabalhos incidam sobre a questão de o Irão pretender ou não fabricar armas nucleares. O presidente iraniano negou essa intenção durante a primeira sessão dos trabalhos, a decorrer nas instalações das Nações Unidas em Nova Iorque, mas os representantes dos Estados Unidos, do Reino Unido e de França abandonaram a sala.

Não estão presentes em Nova Iorque países nucleares que não são signatários do TNP e que mantêm os seus arsenais atómicos operacionais como são os casos da Índia, do Paquistão e de Israel. Estão presentes países que teoricamente não possuem armas nucleares mas que as têm instaladas nos seus territórios com possibilidade de as utilizar, como são os casos da Bélgica, Holanda, Alemanha, Itália e Coreia do Sul. Estas situações não são reconhecidas e assumidas pela comunidade internacional.
O Movimento dos Países Não Alinhados vai apresentar à conferência um projecto de desarmamento nuclear global até 2030, que implica também a aceitação por todos os subscritores do tratado de 1996 que proíbe os testes nucleares. Nas anteriores sessões de negociações as principais potências têm-se recusado a aceitar propostas que estipulem prazos para o desarmamento.

A Pressão da sociedade civil

Antes da reunião oficial decorreu, também em Nova Iorque, uma reunião de activistas dos movimentos da paz e do desarmamento de todo o mundo que pretenderam demonstrar aos governos como seria possível, e melhor, um planeta sem armas atómicas.

Mais de 1500 pessoas participaram na conferência de organizações não governamentais “por um mundo livre de armas nucleares, pacífico, justo e sustentável”. Centenas de sobreviventes dos holocaustos de Hiroshima e Nagasaki estiveram presentes para testemunhar as suas dramáticas experiências.
No centro das discussões plenárias e efectuadas em grupos de trabalho esteve a abolição das arma nucleares mas também a relação entre a guerra e a violação dos direitos civis e entre a guerra, a destruição ambiental e a devastação social.

O secretário geral das Nações Unidas esteve presente nos trabalhos e elogiou os movimentos da paz pelo seu trabalho contínuo apesar de a maior parte das vezes os seus apelos não serem ouvidos pelos governos. Ban Ki-moon salientou a importância do papel da sociedade civil na luta pelo desarmamento e relembrou que o objectivo das negociações sobre o nuclear é efectivamente o desarmamento global e controlado, como prevê o próprio TNP, embora isso nem sempre esteja nos horizontes dos negociadores.
Reiner Brown, membro da coligação de 25 organizações pacifistas que promoveram a reunião, declarou que “queremos um mundo sem pobreza, sem fome, sem injustiça social e sem destruição da natureza. De um modo dialéctico: um mundo justo só é possível com paz e, por outro lado, a justiça é impossível sem paz. E, em ambos os casos, os direitos dos homens e das mulheres são uma parte essencial”.

O Partido da Esquerda Europeia esteve presente na conferência de organizações governamentais e os seus representantes participaram também no desfile de mais de dez mil pessoas que decorreu domingo entre Times Square e o edifício das Nações Unidas.

Fonte:
http://www.beinternacional.eu/pt/noticias/531-quem-aceitara-o-desafio-de-ban-ki-moon

MAIS INFORMAÇÃO:
http://www.european-left.org/nc/english/home/news_archive/news_archive/zurueck/latest-news-home/artikel/no-nukes-no-wars-fund-human-needs-protect-the-planet/

http://www.european-left.org/nc/english/home/news_archive/news_archive/zurueck/latest-news-home/artikel/control-is-important-but-not-enough-abolition/

http://peaceandjusticenow.org/wordpress/